Por que os homens traem? Por que as mulheres traem?

Publicado em 20 de agosto de 2018

Existe no mundo ocidental a ideia de “traição”, em um sentido bem específico. Em termos populares, no Brasil: o famoso corneamento no relacionamento de namoro ou casamento. O que é considerado traição varia. Mas o que tem variação menor são os motivos de homens e mulheres – claramente diferentes. O homem tem motivos, a mulher tem outros motivos.

Não vi ainda pesquisas que desmintam essa informação geral que, enfim, perdura já há algum tempo, ao menos dentro do quadro da modernidade, desde que o “casamento burguês” se transformou em modelo para qualquer casamento. O que sabemos é isso: mulheres traem em busca de atenção, carinho e proteção. O homem pode trair por isso tudo, mas o motivo proeminente é o aspecto visual da nova parceira. Falei em aspecto visual, não necessariamente beleza. Esse motivo, no caso da mulher, está bem no fim da fila, por mais que algumas mulheres na TV (e apenas na TV) teimem a se portar como gays masculinos, desejando “boy magia” ou “bofe de ouro” e coisas do tipo.

Se saímos da vida moderna, tanto geográfica quanto historicamente, podemos notar que o casamento muda, mas os motivos da traição (onde se pode falar em traição ou coisa parecida) guardam fantásticas similaridades com os motivos que aparecem nas pesquisas universitárias modernas sobre relacionamento. A antropologia dá uma dica sobre como explicar isso.

Nossos ancestrais longínquos, ainda nas cavernas, dividiram bem os serviços: o homem caça e a mulher cuida da prole e de afazeres domésticos. (1) A mulher educa sua visão para o perto, o pequeno, o detalhe, e nutre seu coração para a prioridade da segurança da prole. O homem educa sua visão para o distante, para o horizonte, para a caça maior, para as montanhas e rios, ele deve voltar para a casa com o alimento. Seu coração prioriza o “dever cumprido”. O homem se tornou um admirador de paisagens, a mulher se tornou uma exímia encontradora de objetos. Todos nós que não achamos algo gritamos, quando podemos: “mãenhêêê!”. Ela vem e acha. Se não acha, ela promete “três pulinhos e três gritinhos para São Longuinho”, e logo ela acha. Mulher prega botão. Homem quando prega botão é afeminado. E isso que falo não tem carga preconceituosa nenhuma. O “afeminado” nesse caso é dito no sentido antropológico: trata-se do homem que faz algo que é da ordem do detalhe, do pequeno, ou seja, aquilo que especializou aquele que ficou na caverna, e não o que saiu (aqui, é sempre bom o conceito de antropotécnica, de Sloterdijk).

É notável isso quando olhamos a bolsa de uma mulher. O homem sai sem levar sua casa pendurada no braço. A mulher sai levando sua casa. Dentro da bolsa dela há um lar. E pelo tato ela acha o que quer dentro da bolsa que, pequena ou grande, nunca tem algo menos que mais que uma dezena de objetos. Não é só a visão da mulher que se formou longe do gosto pela paisagem, mas também o tato. Sem dizer o ouvido! E o faro, então?

A questão da traição não é a questão de que o homem é eterno caçador e, portanto, logo parte em busca de nova fêmea, e assim cria a situação de traição. Nada disso. Ele se tornou visual por ser caçador, e sendo visual, ele parece não conseguir não ter interesse senão naquilo que se apresenta segundo certa distância. A sua esposa está sempre perto. A outra, sempre segundo uma distância atrativa, que o fez olhar, inicialmente, para a primeira esposa. Que as mulheres saibam disso: não adianta ficarem bonitas ao gosto do marido, é necessário se deixarem admirar sem o toque, segundo uma distância ideal. Eu já me peguei várias vezes olhando para umas nádegas salientes no supermercado e dizendo para mim mesmo: “Deus existe!”. Ao falar isso, olhei para os lados, para ver se a Fran não estava me pegando no flagra. Mas eis que as nádegas observadas chegam mais perto e minha miopia cai por terra: a admirada como alvo de um pretenso assédio de tarado era a Fran! Que bom casei certo!

A Fran é capaz de admirar homens bonitos? Claro. Mas o faz como mulher: mais pela TV que pela rua. A rua é lugar de andar, trabalhar, olhar vitrine (de perto). A TV coloca os homens na distância própria do lar. Aí a mulher olha. Por isso as mulheres são capazes de se apaixonar por homens bonitos da TV, artistas, enquanto que os homens podem se apaixonar por qualquer feiosa por aí, se ela tiver volumes que estejam postos na distância certa, na média e longa distância. O homem é voyeur. A mulher voyeur é algo mais raro.

Tudo isso fica mais claro e resumido por meio de uma observação simples: o homem nunca pensa em “beleza interior”, só a mulher lança mão disso, dessa metáfora, e a requisita para si, para ser avaliada – mesmo quando está maquiadérrima e “vestida para matar”. Uma maior apreciação da antropologia garante trazer o homem de volta (ou a esposa) bem mais que qualquer “Pai Bento” que joga búzios ou faz “despachos”.







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Depoimentos
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Maria Terezinha Barbieri




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