
Demissões Voluntárias em Alta: Por Que Tantos Pedem Para Sair?
Sempre que se falava em emprego, os problemas relacionados ao tema sempre giravam em torno das dificuldades de se conseguir um. Mas isso já mudou. Agora temos um fenômeno que vem crescendo cada vez mais: o número de trabalhadores que pediram demissão por vontade própria nunca foi tão alto.
Para ficar em um dado recente do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), só em julho de 2024 foram mais de 747 mil demissões voluntárias. Esse número foi 10% maior do que no mês anterior e o maior desde o início do período de apuração, em janeiro de 2020.
A pergunta aqui, claro, é: por quê?
Provavelmente, se perguntarmos para alguém que acabou de pedir demissão, a sua resposta pode ser um “Devia ter me demitido antes!”. Lendo alguns comentários em páginas que abordaram o assunto, o que mais se sente é que essa tomada de decisão vem muitas vezes acompanhada de um alívio enorme.
Esse alívio pode ser revelador. Certamente, não é apenas um motivo que leva alguém a abrir mão de um salário fixo e, em muitos casos, a decisão é tomada sem que haja sequer a garantia de uma nova oportunidade de emprego, mas o que esse cenário reflete, é uma crise no mercado de trabalho.
Ela ainda é pouco discutida, ainda que milhões de brasileiros estejam preferindo enfrentar a incerteza do desemprego a permanecer em um ambiente onde não se sentem valorizados ou felizes.
Em outras épocas, isso seria impensável.
Não dá para imaginar um fenômeno assim acontecendo, por exemplo, ali pela década de 1950, onde um emprego era visto como algo pra se segurar com unhas e dentes.
Mas os tempos mudaram e parece que pelo menos uma faixa de trabalhadores parece ter a segurança de assumir esse risco e tentar encontrar outras opções profissionais.
Esse movimento tem sido tão expressivo que já foi devidamente batizado: A Grande Renúncia (esse nome, que em português parece título de reality show, vem de Big Quit, já que começou nos Estados Unidos, a partir de 2021, ainda durante a pandemia).
Essa tem sido uma tendência mundial, acontecendo também na Alemanha, Reino Unido e até Japão. Sim, até no Japão, onde se criou o termo “karoshi” (morte por excesso de trabalho), empresas estão vendo crescer o número de trabalhadores que deixam seus postos voluntariamente. Claro que as causas e a intensidade variam conforme o contexto social e econômico de cada lugar.
Mas vamos ficar no Brasil: o que está levando tantos brasileiros a abrirem mão de seus empregos?
Lendo alguns relatos de quem passou pela experiência, alguns motivos parecem ser os mais dominantes.
Um dos principais é a remuneração considerada baixa. Quem mora em grandes cidades, como Rio e São Paulo, tem visto a alta do custo de vida disparar, especialmente alugueis e alimentos. A estagnação salarial, aliada à inflação acumulada, faz com que os trabalhadores sintam que estão ganhando menos a cada ano.
E estão, claro, o que também leva a um movimento coordenado, de demissão e de saída desses grandes centros. Quem pode, busca cidades menores, com custos idem e qualidade de vida maior, especialmente se trabalham em home office.
Além do salário baixo, há também o sentimento de desvalorização, já que muitos sentem que, mesmo com bons desempenhos, não recebem aumentos ou promoções, o que gera frustração e desmotivação.
Outro fator que pesa na decisão de pedir demissão é o excesso de trabalho, esse também compartilhado pelo pessoal do home Office. Aliás, foi onde muitos sentiram o aumento dessa carga, devido a dificuldades de separar a vida profissional da doméstica.
Mas seja em casa ou no escritório, muitos reclamam das jornadas muito acima das horas semanais previstas em lei. Jornadas sem o pagamento de horas extras, além de outros problemas, como acúmulo de funções e até falta de pausas adequadas. Aquela história do pessoal da Amazon, nos Estados Unidos, urinando em garrafinhas para não ir ao banheiro é um exemplo extremo. Mas a supervisão em cima do tempo dos intervalos é real e incômoda em muitas empresas.
O que leva a outro ponto, muito citado: o ambiente tóxico.
E aqui estamos falando de assédio moral, competitividade extrema e falta de empatia por parte das lideranças. Todo esse conjunto leva ao esgotamento emocional e físico, e cada vez mais pessoas buscam sair antes que a situação cause danos permanentes à saúde mental.
Um relato comum é a “sensação de serem cobrados como “máquinas””, sem qualquer reconhecimento ou retorno positivo, sempre a espera de um feedback construtivo que nunca vem, assim como oportunidades reais de crescimento. Essa falta de reciprocidade gera um ambiente desmotivador.
Muitos gestores ainda operam sob a lógica do medo, pressionando os funcionários com ameaças veladas de demissão ou sobrecarga, sem oferecer qualquer perspectiva de futuro. Nesses casos, a porta de saída fica cada vez mais convidativa.
E temos as metas. Muitas empresas mantêm as mesmas, seja em que cenário for, até com menos funcionários ou menos recursos. E metas inalcançáveis são um caminho seguro para o esgotamento e o desencanto com a empresa.
Benefícios também entram nessa equação. Planos de saúde de qualidade, vale-alimentação suficiente, auxílio home office e programas de bem-estar, muitas vezes não fazem parte do pacote que a empresa oferece.
Pensando em trabalhadores que podem fazer essa opção, que são o tema desse artigo, sem esses benefícios, o emprego se torna ainda menos atrativo, especialmente quando o trabalhador compara o custo-benefício de estar empregado com o desejo de preservar a saúde, o tempo livre e o convívio familiar.
Para muita gente, a vida profissional não se limita a ganhar mais ou mesmo o status de trabalhar em uma grande empresa. Os desejos e busca estão mais relacionados a respeito e, principalmente, qualidade de vida.
Enquanto as empresas e o mercado não se adaptarem a essa nova mentalidade — que valoriza o equilíbrio e o bem-estar tanto quanto o salário — a tendência é que as demissões voluntárias continuem a crescer.
Gostou do artigo?
Quer entender melhor por que tantos trabalhadores estão pedindo demissão voluntária, mesmo sem outra vaga em vista? Então, entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.
Marco Ornellas
https://www.ornellas.com.br/
Confira também: Demissões por Compliance: Como Equilibrar Ética e Transparência?
Participe da Conversa